No Dia Mundial da Conscientização do Autismo, torcedores reforçam a necessidade de espaços adaptados para neurodivergentes nos estádios brasileiros
Lara França, torcedora do Athletico na Ligga Arena — Foto: Tato França
Nesta quarta-feira, o Dia Mundial da Conscientização do Autismo destaca um dado preocupante sobre acessibilidade nos estádios do Brasil. Entre os 39 estádios que recebem jogos das Séries A e B do Campeonato Brasileiro de 2025, apenas 15 contam com salas sensoriais, enquanto outros 24 ainda não oferecem essa estrutura. Esses espaços são projetados para auxiliar na auto-regulação emocional de pessoas com autismo e outras neurodivergências, oferecendo controle de luzes, sons e texturas.
A torcedora Lara França, de 19 anos, sente na pele a falta desse espaço na Ligga Arena, casa do Athletico-PR. Diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) desde os três anos de idade, ela sempre acompanhou os jogos ao lado da família, mas a sensibilidade aos sons intensos a afastou do estádio desde 2021. Seu pai, Tato França, lamenta a falta de suporte.
— A Arena não oferece o suporte adequado para autistas. Se houvesse uma sala sensorial, a Lara poderia voltar ao estádio e se sentir parte da torcida novamente — comenta Tato.
Projeto da sala multissensorial do Athletico-PR — Foto: Fundação CAP
A boa notícia é que o Athletico anunciou o início das obras para um espaço multissensorial dentro da Ligga Arena. O projeto, coordenado pela Fundação CAP, está em desenvolvimento há dois anos, com o apoio de especialistas e torcedores neurodivergentes para garantir uma solução eficaz.
Rubens Neves, diretor executivo da Fundação CAP, explica a proposta.
— A sala não será um camarote isolado, mas sim um espaço de regulação emocional. Queremos que as pessoas assistam ao jogo no assento comprado, mas que tenham um local seguro caso necessitem se acalmar — explica.
A iniciativa se soma a outros projetos já implementados no Brasil, como no estádio Couto Pereira, que oferece um camarote sensorial com isolamento acústico, iluminação ajustável e mobiliário adaptado. O Mineirão também aderiu à ideia em 2024, com uma sala para 14 pessoas por jogo.
A importância das salas sensoriais
Salas sensoriais ajudam a reduzir a sobrecarga sensorial e a ansiedade, proporcionando um ambiente seguro para quem precisa de uma pausa durante os jogos. A psicóloga Natalia Ribas, que também é autista, destaca o impacto positivo dessas iniciativas.
— Além de garantir conforto, esses espaços reforçam a inclusão e sensibilizam a sociedade sobre a necessidade de adaptações para todos — ressalta.
Os estádios que possuem esses espaços incluem a Neo Química Arena, o Allianz Parque, o Morumbi, entre outros. Por outro lado, grandes palcos do futebol brasileiro, como o Maracanã e a Arena MRV, ainda não contam com essa estrutura, mas já anunciaram planos para implementação.
Autismo e acessibilidade no Brasil
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) afeta a comunicação e a interação social de forma variável. Dados do Censo da Educação Básica mostram que, entre 2022 e 2023, o número de estudantes autistas matriculados em salas comuns cresceu 50%, saltando de 405 mil para mais de 600 mil. Estudos indicam que uma em cada 30 crianças no Brasil está dentro do espectro autista.
No contexto legal, pessoas autistas têm os mesmos direitos garantidos a pessoas com deficiência, incluindo prioridade em filas e atendimento preferencial. A discussão sobre acessibilidade nos estádios reforça a necessidade de ampliar as iniciativas de inclusão em diversas áreas da sociedade.
Fonte: Jogo de Hoje 360